Anísio Spínola Teixeira (Caetité, 12 de julho de 1900 — Rio de Janeiro, 11 de março de 1971) foi um jurista, intelectual, educador e escritor brasileiro. Após se formar no colégio jesuíta de Salvador – BA, é investido no cargo de Diretor de Instrução Pública do Estado da Bahia, começa a rever suas convicções educacionais, vindas da formação na ortodoxia católica. Anísio era um entusiasta leitor de Omer Buyse– Méthodes américaines d’éducation générale et technique, Paris, Dunot & Pinat, 1909; e após mandar traduzir esta obra para distribuição nas escola baianas, ele viaja por duas vezes aos Estados Unidos. Na segunda viagem em 1927, Anísio faz cursos na Columbia University, onde conhece o Filósofo e Educador Jonh Dewey, e visita várias escola americanas. Ao retornar entrega seu relatório de viagem ao governo da Bahia, organizado de modo a tornar visível as condições materiais e intelectuais do sucesso das escola norte-americanas. O intuito de dar publicidade ao seu trabalho resulta na obra “Aspectos Americanos de Educação”- 1928.
A obra resenhada a partir da publicação da editora UFRJ, é o volume I de um total de 12, da coleção Anísio Teixeira, organizada pela Professora Clarice Nunes, com o objetivo de apresentar uma perspectiva atualizada da reflexão deste educador, onde muitos dos problemas levantados por ele ainda estão em pauta na educação brasileira, como os apresentados.
Na primeira parte, dividida em 4 tópicos, ele faz uma explanação da história e desenvolvimento da organização educacional, explicando a teoria em que se faz as bases da educação naquele país. Anísio relata que nos Estados Unidos uma estrutura de escola secundária única e universal existe desde a década de 1920. Assim como no Brasil, lá também havia um ensino dualista com um currículo escolar baseado nos três ‘R’ – Reading, writing and reckoning – (ler escrever e contar). Anísio demonstra como o currículo dividido existiu nos EUA, citando os estudos de Harold Rugg que trazem este histórico e aponta situações que lembram a educação brasileira. Para Rugg a vida americana se expandiu “... em duas correntes inteiramente diversas: uma, a corrente econômica prática; outra, acadêmica, intelectual, de-outro-mundo, a corrente de educação e das letras.” Assim no século XIX com a conquista da terra, industrialismo, urbanização, educação em massa (mass-education) este último aspecto é que se movia mais lentamente e desajustado. O divórcio entre a escola e a sociedade, somente a partir do século XX é que começou a desaparecer, com ataque de W. James, Dewey, Thorndike, Woodwoth, Judd e seus estudos das leis biológicas do crescimento infantil, da psicologia e do próprio currículo. Para estes pensadores o sentido de educação só se faz pelo meio que a vida social se perpetua, pela transmissão de valores morais e sociais. Com as complexas formas de civilização moderna o acesso à educação se dá através de esforços coordenados e longos em uma agencia especial – a escola- e um grupo especializado – os professores. A escola é apenas o imprescindível substituto, o atual complemento da educação que permanentemente recebemos da sociedade. “A sociedade governa e orienta as suas forças educativas, controlando o ambiente especial de educação – a escola. Dewey prefere definir a função educativa como função de direção, mais que de controle e de governo.” Anísio relata que Dewey acreditava que a estrutura educacional baseada na transmissão de conteúdo de forma direta, através de treinamento mental de especialidades e erudições, para depois aplica-la na vida não era uma função educacional formadora de estruturas de pensamento. Os estudos de psicologia traziam para ele o elemento do aprender com sentido se fazia mais produtivo “... a essa educação obtida por motivos externos (puramente) chama ‘Treino’. A verdadeira educação se processa em um segundo passo , quando o educando não somente aprende uma coisa nova, mas compreende e participa do seu sentido social.”
Mas a teoria americana de educação não poderia ser compreendida se não fosse estudada à luz da organização democrática de sua sociedade. Anísio diz que é na América (do Norte) que a democracia ampliou seu sentido político e significa uma nova experiência de vida associada. Citando Dewey, ele escreve dois critérios fixados para julgar as condições de um grupo social: Os interesses partilhados em comum e a cooperação com outros grupos distintos. Estes pontos são bases na sociedade democrática, pois caracterizam este tipo de sociedade. “Só uma organização educativa verdadeiramente eficiente pode amparar e manter esses ambicioso projeto de vida social que a democracia americana esta realizando.” É na inclusão do homem comum que consiste a grandeza da escola americana. Para Anísio esse ideal que anos atrás seria uma utopia, parece perfeitamente realizável nos Estados Unidos. A ideia de “Eficiência social como um aparelhamento do indivíduo para uma progressiva organização social, mais e mais adequado ao desenvolvimento harmonioso das atividades individuais”, é que se traduz em eficiência econômica ou competência industrial e eficiência cívica.
A conexão que se fez na escola americana, entre a sociedade e o aluno foi na compreensão e comunhão dos interesses de cada parte, segundo a teoria do interesse. Essa teoria se baseia em focar nos interesses das partes para daí direcionar a ação. Ela é um extraordinário auxiliar para o professor no descobrimento das diferenças individuais e o auxilia assim a um mais inteligente ajustamento da educação. Ela supera a concepção de mente e seu treino da concepção escolástica que julga que a inteligência tem uma faculdade de conhecimento isolada de qualquer outra atividade. Inteligência ou mente representa somente a habilidade de responder a certos estímulos presentes, com uma visão de suas futuras consequências, que procuramos modificar ou controlar tanto quanto possível. A instrução verdadeira se processa por intermédio do desenvolvimento de uma atividade – experiência. A grande discursão em torno do currículo que atendesse a estes princípios, não intenta somente adaptá-lo a criança, mas adaptá-lo à moderna sociedade americana. O conceito social de educação significa que, cuide a escola de interesses vocacionais ou interesses especiais de qualquer sorte ela não será educativa se não utilizar esses interesses como meios para a participação em todos os interesses da sociedade. Latim, Grego ou a profissão de carpinteiro devem ser ensinados com o mesmo espírito de fazer do educando um membro da sua atual sociedade, com poder e oportunidade para participar em todos os seus interesses, através de um currículo correspondendo e utilizado em função do ideal educativo de ‘eficiência social’. A escola em si será uma agência de contínua transformação social que constitui o processo democrático, uma agencia de inquérito e reconstrução social. Só assim o seu conteúdo coincidirá com o conteúdo da sociedade democrática, só assim ao invés de tornar as mudanças sociais difíceis, ela colaborará na própria revisão social constante, que é a essência da democracia.
Na segunda parte do seu livro, Anísio Teixeira faz o relato de sua excursão em estabelecimentos de ensino, todos descritos pelo seu aspecto de objetividade, grandeza, funcionalidade e grande riqueza de materiais que refletiam na riqueza da sociedade americana. A escola de Flemington, no estado de Nova Jersey, é uma escola rural que atende onze distritos que mantém a escola; A escola em Baltimore, estado de Maryland, é uma escola normal de dois anos mantida pelo Estado e a municipalidade. Neste estado, mesmo as escolas puramente rurais possuem o mesmo padrão de qualidade das escolas americanas; Outra escola normal é o Instituto Hampton, fundada em 1868, pelo Bureau dos homens libertos pós guerra de secessão. Esta escola influenciou várias escolas no país através de antigos alunos. Apesar de ser uma instituição privada seus fundos são provenientes de toda ordem social, onde os alunos pagam, mas no sistema de trabalho, existente na própria escola, remunera os alunos por trabalhos feitos na escola, muito mais que o valor que paga. A escola Normal de Farmville é uma das mais afamadas escolas para moças e localiza-se no estado da Virgínia.
Em uma grande cidade, Cleveland o sistema de ensino se baseia no 6-3-3 – 6 anos de escola elementar, 3 de escola Junior High scool e 3 de Sênior Hight scool, onde a exigência de treino e o sustento do programa deveria vir de quem vai empregar o resultado do treino – a indústria, que lavra com cada aprendiz um contrato de aprendizado onde o aluno recebe por hora empregada. A Wilson Junior high Scool, com 1300 alunos que tem por semana 4 horas de trabalhos em oficinas sem objetivo de profissionalização. A Colinwood high scool compreende a modalidade junior e sênior. Esta escola custa o terço do que costuma custar uma escola ordinária profissional. Em Detroit, visita a escola Brady, um modelo de escola Platoon que a meu ver é o modelo que mais lembra as escolas de filmes americanos, pela sua organização, temporalidade e disponibilidade física. No geral Anísio destaca quatro pontos caracterizam os colégios americanos: Profusão de edifícios vastos e apropriados e aparelhamento e instalações luxuosas e abundantes; métodos de ensino vivos, práticos, em que participam igualmente professores e discípulos; um currículo flexível e rico, com extraordinária variedade de cursos de sorte que permita uma adequada adaptação às necessidades e preferência dos discípulos; e uma vida de estudantes tão diversa e variada, com tantas associações e clubes e tão grande atividades coletiva. Esses aspectos é que fazem Anísio repetir diversas vezes na obra, o pensamento de Dewey: “A escola não prepara para a vida, ela é a vida.”
Na segunda parte do livro, há também a descrição do Bureau de educação, órgão oficial do governo federal americano. Anísio destaca sua função de um local onde não se emana ordens, mas se recolhem, se medem e se estudam resultados e apresentam sugestões e inquéritos, com grande número de publicações editados anualmente afim de manter em dia o estado das múltiplas e variadas atividades educacionais do país. Outra entidade a Associação Nacional de Educação (NEA) é uma associação voluntária de mestres americanos. Dizem ser nacional porque sua atividade se fazia sentir em todo país por meio de inúmeras organizações locais, diferente do Brasil onde a sociedade existe no Rio de Janeiro, por isso é nacional. Segundo o secretário geral da Associação o Sr J.W. Crabtree, a alma desta, “...É uma questão de não querer dominar mas ajudar, é uma questão de esquecer o eu, a personalidade e trabalhar para o serviço que presta.” Anísio comenta, “Mal sabia o sr Crabtree que tinha marcado uma das mais profundas oposições entre a psicologia do nosso povo e a psicologia do americano. No Brasil, ajudar um ao outro é enfraquecer-se e favorecer o sucesso alheio. A obra que sabe, que apetece a esse mórbido espírito nacional de vaidade é a de diminuir, de impedir a prosperidade, de negar colaboração, de fechar os olhos ao serviço alheio e, afinal, a de descobrir e inventar a fenda insignificante, por onde, perante o público, a obra possa ser desmoralizada.”
Anísio com este relatório e seu pensamento educacional influência muitos educadores no Brasil. Personagem central na história da educação no Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, difundiu os pressupostos do movimento da Escola Nova, que tinha como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento, em preferência à memorização. Reformou o sistema educacional da Bahia e do Rio de Janeiro, exercendo vários cargos executivos. Foi um dos mais destacados signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em defesa do ensino público, gratuito, laico e obrigatório, divulgado em 1932. Fundou a Universidade do Distrito Federal, em 1935, depois transformada em Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil.
Sinto falta dele nos dias de hoje.
Nilton Ferreira Bittencourt Junior.
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